Ibmec: um feliz acidente do destino
Ibmec: um feliz acidente do destino
Por VanDyck Silveira
Sempre digo aos meus alunos que vejo o Ibmec como um feliz acidente do destino, ou melhor, do mercado. O Ibmec nunca foi planejado para ser uma escola de negócios, muito menos para ser um dos mais respeitados centros de desenvolvimento de executivos do Brasil.
Quando o Ibmec foi fundado na década de 70, a missão da instituição era produzir subsídios intelectuais para o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil. O Ibmec era um “think tank” a la Brookings, formado por pesquisadores de primeira linha, treinados nas melhores universidades do mundo e integrados ao mercado por meio de uma forte relação com bancos privados, com as bolsas de São Paulo e do Rio de Janeiro e também órgãos governamentais.
Como na maioria das relações onde o público e o privado se misturam, a realidade do Ibmec não poderia fugir à regra. Quando o vice-presidente da instituição na época fez duras críticas à condução da desastrosa política monetária do governo Figueiredo, as fontes de financiamento estatais do Ibmec secaram instantaneamente, deixando o instituto literalmente falido. Como é peculiar aos governos autoritários, críticas, principalmente as verdadeiras, são coibidas em fúteis tentativas de varrer sob o tapete toda a sujeira oriunda da insensatez típica dos regimes que não se sustentam na legitimidade da aprovação popular.
Apesar da falta de verba para dar continuidade às pesquisas, nasceu no Ibmec a proverbial “oportunidade dentro do caos”, que sem percebermos, plantava a semente do futuro Ibmec S.A, a primeira empresa de educação profissionalmente gerida no país. Para manter o instituto vivo, os executivos do Ibmec não se acomodaram, mas bateram na porta de vários bancos do Rio de Janeiro a fim de conseguirem alunos para um curso de capacitação em finanças que ensinaria executivos a lidar com inflação nos cálculos de tesouraria e a utilizar a afamada calculadora HP12C.
Com a receita deste curso, que obteve sucesso imediato, o Ibmec não só manteve a pesquisa fluindo, mas partiu com o modelo de que educação-pesquisa de ponta só poderia ocorrer subsidiada pelo governo. Esta foi a nossa primeira bênção do mercado.
O avanço do Ibmec como instituição de ensino foi tão rápido, que em março de 1985 o curso de capacitação em finanças cedeu lugar ao lançamento do primeiro MBA do Brasil, que no mesmo ano abriu filiais em São Paulo e em outras cidades. Fomos pioneiros e desenvolvemos uma nova cepa pragmática de programas de pós-graduação, com alto rigor acadêmico e que se transformou na bandeira da instituição. Em 1995, lançamos os cursos de graduação no Rio de Janeiro, que em pouco tempo já estavam entre os melhores do Brasil.
Em 1998, veio a consolidação do que havia sido semeado no início da década de 80. Um grupo de investidores liderados por Cláudio Haddad e Paulo Guedes fez o que parecia impossível no Brasil. Privatizaram uma entidade semi-estatal e constituíram o Ibmec S.A, alicerçado em valores como excelência educacional e rentabilidade. Com a privatização, o Ibmec provocou movimentos nas estáveis placas tectônicas da educação brasileira, abrindo sismicamente o debate sobre a participação do setor privado na educação. Entre protestos de que educação não é mercadoria, vimos a decadência do modelo de educação estatal com greves, fraudes e grandes ineficiências. Ao mesmo tempo, silenciosamente do outro lado deste debate, escrevíamos um capítulo importante da história da educação e do capitalismo brasileiro, oferecendo ao mercado programas modernos com alto rigor acadêmico e de qualidade ímpar em nosso país. Esta foi a segunda benção do mercado.
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- Publicado em:
- 1 de August de 2007
- Categoria:
- artigos
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